Resenha do livro "Apanhador no Campo de Centeio"

Para onde vão os patos do lago no Central Park quando o inverno chega? É com esse tipo de metáfora que Salinger levanta questionamentos sobre a vida no clássico americano The Catcher In The Rye (O Apanhador no Campo de Centeio).
“Mas o gozado é que, enquanto ia metendo a conversa mole, eu estava pensando no laguinho do Central Park, aquele que fica lá pro lado sul. Imaginava se ele estaria congelado quando eu voltasse para casa e, se estivesse, para onde teriam ido os patos. Estava pensando para onde iam os patos quando o lago ficava todo gelado, se alguém ia lá com um caminhão e os levava para um jardim zoológico ou coisa que o valha, ou se eles simplesmente iam embora voando.”
A narrativa é bastante simples, em primeira pessoa com pouca diversidade de técnicas narrativas – o que não tira a qualidade de ser uma grande obra -. Grandes livros tendem a nos induzir a um questionamento interno, nos deixar com ressacas literárias após terminarmos de lê-los e nos causar nostalgia ao lembrar de certos personagens ou passagens. O Apanhador no Campo de Centeio é revolucionário para a época, simboliza a quebra de tabus do puritanismo americano, tratando de temas como sexo, sexualidade, preconceito, prostituição, violência, religião, estereótipos… Enfim, toda uma gama de assuntos considerados sensíveis – até hoje-.
“Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso.”
A narrativa acontece em 1949, durante três dias da vida do protagonista Holden Caulfield, um jovem novaiorquino de 16 anos e de família bem abastada, que resolve contar uma história que aconteceu com ele, mais especificamente quando  fora expulso de mais um internato, o Colégio Pencey. Holden é o típico caso do adolescente depressivo: reprova matérias na escola, é irresponsável e adora uma boa farra; tem problemas de identificação com o mundo e se considera um outsider, tudo para ele é niilista e hipócrita; a humanidade é podre, nauseabunda e corrompida. Ele finge que não liga, mas, na realidade, se importa mais com os outros do que admite. Eis que uma noite, após receber oficialmente a expulsão e brigar com um colega de dormitório, Holden decide voltar para Nova Iorque e passar alguns dias fora, pretendendo chegar em casa apenas no dia de natal. Nesse ínterim, ele conhecerá dos mais diversos tipos de pessoa, das mais desprezíveis às que lhe despertam admiração e respeito.
 “Era de vomitar. Entraram em órbita, igualzinho aos imbecis que riem como umas hienas, no cinema, das coisas sem graça. Juro por Deus que, se eu fosse um pianista, ou um autor, ou coisa que o valha, e todos aqueles bobalhões me achassem fabuloso, ia ter raiva de viver. Não ia querer nem que me aplaudissem. As pessoas sempre batem palmas pelas coisas erradas. Se eu fosse pianista, ia tocar dentro de um armário.”
– Tocar piano em um armário, genial…-
O Apanhador no Campo de Centeio é um livro de linguagem fácil, porém com uma temática muito mais complexa do que uma primeira leitura possa revelar: qual o sentido da vida? Por que as pessoas são tão egoístas? Por que seguir em frente? E é assim que um bom livro deve ser, cheio de questionamentos, metáforas e múltiplas interpretações.  É  altamente recomendável não só para adolescentes até os 20 anos de idade – que provavelmente irão se identificar mais em alguns pontos com o protagonista – mas para todos aqueles que gostam de uma boa narrativa. No final, o livro não é só o zeitgeist dos EUA pós segunda guerra, mas um grande monólogo sobre o Humano. Um detalhe interessante é que Holden não é dos narradores mais confiáveis, pois, como ele mesmo confessa, é um mentiroso compulsivo, que mente até mesmo sem um motivo aparente, simplesmente por diversão – o que deixa dúvidas: até onde o que ele nos conta é verdade?
Fonte: http://becoliterario.com