Seção Resenha de Livros: VIDEIRAS DE CRISTAL

Olá.
Aqui é o Rafael novamente, em nova colaboração para o blog da Biblioteca Pública.
Hoje, volto a falar de livro. Conforme prometido há postagens atrás, voltamos a falar da Revolta dos Mucker (1868 – 1874), o movimento messiânico ocorrido em uma área de imigração alemã do Rio Grande do Sul. Voltamos a evocar a figura de Jacobina Maurer, usando para isso seu relato romanceado mais famoso.
Hoje, então, falo do romance VIDEIRAS DE CRISTAL, de Luiz Antônio de Assis Brasil.

ASPECTO FÍSICO
Bem. Há algum tempo atrás, falei a respeito do escritor gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil. Escritor, professor universitário, músico, com seus romances focando principalmente o passado do Rio Grande do Sul, Luiz Antônio de Assis Brasil é aclamado pela crítica, premiado, e teve livros seus adaptados para o cinema.
Já resenhei um livro dele, Cães da Província – para mais informações a respeito do escritor, acessem a postagem referente. Agora, falo a respeito de VIDEIRAS DE CRISTAL, que contribuiu não apenas para sua fama nacional, como também para lançar uma nova luz sobre o movimento mucker.
VIDEIRAS DE CRISTAL foi publicado pela primeira vez em 1990. A sua primeira edição foi pela editora Mercado Aberto (a capa acima é da 5ª edição, de 1997). Quem for ler, antes de tudo se preparem: o volume tem 544 páginas, sem contar capa.
Em 2002, VIDEIRAS DE CRISTAL ganhou uma adaptação para cinema: o diretor Fábio Barreto transpôs o romance para as telas sob o nome A Paixão de Jacobina. Assim, há uma edição do romance com capa especial referente ao filme, pela mesma editora Mercado Aberto. A edição mais recente do romance foi lançada em 2010, pela editora L&PM, atual editora da obra do autor, com 496 páginas (veja capas mais adiante).
O romance já foi bastante analisado em artigos de revistas literárias e trabalhos universitários – eu mesmo, na fase de pesquisa para esta postagem, encontrei uma porção desses trabalhos disponíveis na internet.
Do filme, falamos em outra ocasião. Vejamos primeiro o romance.

ASPECTO HISTÓRICO
Da Revolta dos Mucker – descobri recentemente que o correto para se referir ao movimento seria Revolta “dos Mucker”, e não “dos Muckers” pois o termo alemão é usado sem o “s” tanto no singular quanto no plural – já falei em duas ocasiões: quando resenhei o livro Os Fanáticos de Jacobina, de Fidélis Dalcin Barbosa, e quando resenhei o filme Os Mucker, de 1978, primeira produção artística focando o episódio que, durante muito tempo, foi um tabu para os descendentes de imigrantes alemães estabelecidos em Sapiranga, a “cidade das rosas”, que na época pertencia ao município de São Leopoldo.
Mas vamos recordar rapidamente: o movimento mucker – termo alemão que, em diversas obras, foi traduzido como “hipócrita”, “fanático”, “falso santo” – foi um movimento messiânico (conflito social que gira em torno dos seguidores de um profeta ou pessoa que afirma ser santa, tal como foi a Revolta de Canudos): uma leva de colonos alemães estabelecidos na região de Padre Eterno, na base do Morro do Ferrabraz, em Sapiranga, reuniu-se em torno da figura de Jacobina Maurer, uma mulher de aspecto frágil e, segundo alguns, com indícios de doença mental, que se dizia encarnação de Jesus Cristo, fazia previsões sobre o fim do mundo e confortava as pessoas injustiçadas. Em torno dela e de seu marido, João José Maurer, que já tinha fama na região como curandeiro, formou-se uma nova “religião”, baseada em preceitos que iam contra as regras do cristianismo e do protestantismo (vários imigrantes alemães eram luteranos, e essa corrente cristã era tolerada pelo Império Brasileiro, oficialmente católico, desde que seus adeptos não se reunissem em templos). Há quem enxergue no movimento à casa dos Maurer um ingrediente de protesto contra a intransigência das autoridades – muitos colonos sentiam-se abandonados pelo poder público da época.
Muita gente começou a se juntar à seita. Os que se opunham, os “ímpios”, começaram a espalhar boatos sobre o que realmente acontecia nas reuniões na casa dos Maurer e a açular as autoridades locais contra os chamados mucker. João e Jacobina chegaram a ser presos e conduzidos a São Leopoldo e a Porto Alegre algumas vezes. Os mucker já chegaram a enviar um ofício ao Imperador Pedro II pedindo proteção contra as perseguições das autoridades policiais.
O auge do conflito se deu quando, após muitas provocações por parte dos “ímpios”, os mucker, supostamente a mando de Jacobina, em 1872, começaram a estocar armas, matar e incendiar casas de colonos. Essa perturbação na paz da região foi o suficiente para as autoridades chamarem o Exército Imperial para caçar os mucker.
E foram necessárias três expedições para eliminar o foco principal da seita, ou seja, Jacobina Maurer – a ação do exército imperial foi dificultada pelo terreno conhecido do inimigo. Em uma das investidas, o comandante do exército imperial, coronel Genuíno Sampaio, veterano da Guerra do Paraguai e de outras guerras ocorridas no Brasil, consegue destruir o “templo” dos muckers, porém Jacobina e seguidores conseguiram escapar – e o Coronel Sampaio ainda morreu devido a complicações de um tiro recebido acidentalmente na perna. O cerco final foi no dia 2 de agosto, quando, sob o comando do capitão Francisco Santiago Dantas, o exército, graças à ajuda de um ex-membro da seita, elimina Jacobina e vários seguidores refugiados no mato do Ferrabraz. João Maurer foi encontrado morto tempos depois, supostamente suicidado, e seguidores remanescentes dos mucker foram perseguidos até a virada do século XIX para o XX.
Por muito tempo, os descendentes de personagens da história evitavam falar do assunto, mas, hoje, o movimento mucker rende alguns dividendos para Sapiranga, que hoje promove roteiros turísticos nos locais da tragédia. Por algum tempo, a cruz de madeira que marcava o suposto local onde Jacobina foi morta, erguida no início do século XX, ficou abandonada e até caiu, roída por cupins e bicada por pica-paus, mas uma nova foi erguida, e integra, junto com o monumento em homenagem ao Coronel Sampaio, o roteiro turístico chamado Caminhos de Jacobina.
Bem, é o básico para refrescar a memória dos leitores, porque, fora os artifícios literários usados por Assis Brasil, a história de VIDEIRAS DE CRISTAL é praticamente essa: toda a história do movimento mucker. Mas calma.

ASPECTO LITERÁRIO
VIDEIRAS DE CRISTAL – O ROMANCE DOS MUCKERS, seu subtítulo, compõe-se de diversas histórias correndo em paralelo à história principal. Como literato, construindo seu romance a partir de fato histórico, Luiz Antônio de Assis Brasil admite, parafraseando suas palavras no posfácio da obra, que não tinha muito compromisso com a realidade. Logo, sua versão do conflito dos mucker lança mão de recursos de realidade e de ficção. Desde já se sabe que os fatos históricos podem não ter ocorrido da maneira como foi narrada pelo autor, muito embora ele tenha feito a devida pesquisa para elaborar o romance.
Assis Brasil procurou falar do movimento mucker pelos dois lados: o dos seguidores de Jacobina, e o do lado dos “ímpios”, sem dar certezas de qual lado é o dos “mocinhos”, e de qual é o dos “bandidos”.
Há, claro, a certeza de que o movimento mucker foi uma resposta ao meio social desumano, de autoridades prepotentes e injustiças sociais, os mucker lutando pela única coisa que no momento lhes restava: a fé. Pelo menos, é assim na primeira metade do romance. Na segunda metade, os mucker é que se tornam os “bandidos” da história, quando passam eles mesmos a perseguirem os “ímpios”.
O título do romance faz referência a uma passagem bíblica que compara a alma humana a videiras de cristal: “fecunda nos verões luminosos mas quebradiça quando coberta pela geada do inverno”, uma referência à credulidade do ser humano, e de como tal credulidade às vezes o leva a cometer delitos contra pessoas. Parece que é isso.
A história de VIDEIRAS DE CRISTAL começa na Alemanha, em um vilarejo onde vive o abonado Hans Willibald, que tem por hobby colecionar cactos, mantidos em uma estufa – e isso, apesar de fazer tempo frio na região onde reside, e os cactos serem, antes de tudo, plantas tropicais. Hans passou parte da vida criando um sobrinho órfão, Christian Fischer, e lhe desejava um grande futuro como médico, tanto que custeou sua faculdade de medicina. Mas mal entendeu os motivos porque seu sobrinho resolveu se especializar em psicologia, uma área nova da ciência médica, e os de ele ter escolhido vir ao Brasil para montar seu consultório. Mas o Sr. Willibald autoriza a viagem, em troca de o sobrinho remeter, regularmente, amostras de cactos brasileiros (em princípio, as aparições de Willibald e sua estufa de cactos na trama serve apenas como uma “muleta” no romance, mas há um significado escondido na permanência desse núcleo).
Christian Fischer monta seu consultório em São Leopoldo. Em vários trechos do romance, Christian Fischer, personagem fictício, remete cartas – e os cactos – ao tio, descrevendo os costumes de pessoas da sociedade local e também os acontecimentos da perseguição aos mucker, entremeando alguns capítulos (aliás, não fica nítida a divisão dos capítulos do livro, que não são numerados, são divididos em cenas, em narração contínua como o roteiro de um filme – os grandes espaços em branco é que servem de limite entre as cenas do livro). Em certo momento, instado por um de seus pacientes, Jacó Fuchs, Christian acaba se juntando aos mucker, e lutando ao lado deles.
Jacó Fuchs, ou Jacó-Mula, é um dos personagens mais simpáticos do romance – e esse existiu mesmo! Tido como louco, ou simplesmente idiota, pela família e pelos amigos, e por isso não era levado a sério, Jacó-Mula encontra conforto e compreensão ao se juntar à seita de Jacobina. E segue a mulher cegamente, a ponto de abandonar a mulher e os filhos – decisão da qual se arrepende mais tarde. O homem cria uma cumplicidade com o médico Christian Fischer, a ponto de fazê-lo se juntar aos mucker – e também de arranjar alguns cactos para ele.
Do lado mucker, ainda temos, como personagens principais: Elizabeth Carolina Mentz, cunhada de Jacobina, que carrega em boa parte do livro um enorme sentimento de culpa – ela secretamente trai o marido, Henrique Mentz, com o inspetor de polícia João Lehn, caso que é descoberto pelo cunhado João Maurer, e a culpa acompanha a mulher até seu trágico fim; Ana Maria Hoffstätter, a criada de Jacobina, que acaba brigada com a própria família por conta de suas opções – e ela sofre bastante ao longo do romance, de estupro por bandoleiros até a perda de um amor secreto, morto por membros dos mucker por ter traído a seita; Rodolfo Sehn, suposto amante da Mutter Jacobina, e que se torna seu segundo “esposo” (um momento: segundo Fidélis Barbosa, o segundo esposo de Jacobina foi João Klein! Qual versão está certa?); o violento Robinson, o Ruivo; e o pastor Klein, que se junta à seita após ter perdido o cargo de pastor luterano para Wilhelm Boeber, o que o deixa rancoroso.
Por sua vez, Jacobina Maurer, a Mutter, é retratada no romance como convicta de ser mesmo uma representante do “Espírito Natural” na Terra – nesse ponto, as descrições alternam realidade e supostas visões divinas. O papel de Jacobina oscila entre o de mulher caridosa, que acolhe seus fieis como filhos, e o de mulher de fé, intransigente com as perseguições dos “ímpios”, alternando momentos de lucidez e surtos de sono letárgico. Ela chega a “santificar” sua filha de colo, Leidard, a “filha da Fé”.
Seu marido, João Maurer, anteriormente chamado de Wunderdoktor (Doutor Maravilhoso), anteriormente tinha fama como curandeiro, enquanto sua esposa Jacobina apenas o auxiliava na cura dos doentes e lendo a Bíblia aos fieis; porém, à medida que a importância de Jacobina cresce, o Wunderdoktor passa a perder importância, a ponto de praticamente “sumir” na trama – ele mesmo acaba reconhecendo sua inferioridade.
Do lado dos “ímpios”, temos: o pastor Boeber, que além da franca oposição aos mucker, passa boa parte do romance cuidando de uma maquete de madeira de uma catedral, cujo aspecto é tão simbólico quanto a trama dos cactos de Christian Fischer; o policial João Lehn, arrogante e violento, a paixão secreta de Elizabeth Carolina; o também violento delegado de polícia Schreiner, responsável pelas primeiras perseguições aos mucker; os ex-fiéis Carlos Brenner e Martinho Kassel, que acabam se tornando vítimas da fúria dos seguidores de Jacobina; os militares Genuíno Sampaio e San Tiago Dantas, os líderes da investida final contra os mucker – o primeiro, com um caráter mais violento e duvidoso, o segundo mais ponderado; e o padre Mathias Münsch, católico, cujas convicções e fé são abalados no decorrer da história, até ser vitimado pelas circunstâncias.
Há, no livro, dois capítulos que se passam no Rio de Janeiro, na corte imperial, quando uma comissão de mucker vai pedir proteção junto ao Imperador contra os abusos das autoridades policiais.
Enquanto correm essas histórias paralelas, correm linearmente os acontecimentos referentes aos mucker, conforme relatado anteriormente, então, nem é preciso nos darmos ao trabalho de recontar a história. Claro que o leitor lê VIDEIRAS DE CRISTAL já sabendo como a história termina, mas o que sustenta a narrativa é o estilo vigoroso de Assis Brasil, com as histórias em paralelo, as descrições ricas em detalhes, inclusive nas cenas de extrema violência, uma linguagem que evita ao máximo a extrema erudição que pode afastar leitores de obras desse feitio, e a capacidade de sensibilizar o leitor – está claro que, se os mucker se tornaram violentos, foi uma resposta à violência e à intolerância que eles próprios sofreram. E como não se sensibilizar com, por exemplo, o drama de Elizabeth Carolina, e com o triste fim do Padre Münsch, depois de acolher um deficiente mental que começa a carregar de um lado para outro após a morte dos familiares deste?
Estudiosos apontam, entretanto, que Assis Brasil assumiu o ponto de vista dos “vencedores” em sua narrativa, ou melhor, dos autores que retrataram, em seus estudos, os mucker como fanáticos e violentos, chefiados por um médico charlatão e por uma mulher louca e analfabeta, sem o elemento de denúncia social. Um dos primeiros autores a tratar do movimento mucker foi a padre Ambrósio Schupp, em livro redigido em alemão de cerca de 1900 – que serviu de base tanto para Assis Brasil como para Fidélis Barbosa. Atualmente, a visão de Schupp é contestada pelos historiadores, sobretudo os marxistas.
De todo modo, VIDEIRAS DE CRISTAL firma Luiz Antônio de Assis Brasil como um dos maiores escritores gaúchos, um mestre em retratar o passado gaúcho com ficção. VIDEIRAS DE CRISTAL mostra um autor em plena maturidade artística. Tudo bem que o romance tem mais de 500 páginas, mas garante horas de entretenimento ao leitor que desejar um pouco mais de cultura em sua cabeça. Ah: a edição da Mercado Aberto inclui ainda ilustrações – gravuras do século XIX mostrando os cenários da história, e um mapa da região conflagrada.
Em breve, falamos de seu produto derivado, o filme A Paixão de Jacobina.

Esta postagem é uma versão revista e com alterações do texto publicado anteriormente no blog Estúdio Rafelipe (https://estudiorafelipe.blogspot.com.br/). Aproveitem e conheçam.
Este livro, assim como outros de Luiz Antônio de Assis Brasil, se encontra disponível no acervo da Biblioteca Pública Theobaldo Paim Borges. Em caso de dúvida, pergunte a uma das bibliotecárias, elas podem auxiliar.
Em breve, nova resenha de livros aos leitores, tanto de Vacaria quanto de outras localidades alcançadas pela internet.

Até mais!