Feira do Livro de Vacaria 2016 - entrevista com o Patrono CELSO SISTO

1.             Sabemos que suas obras de literatura infanto-juvenil no Brasil tem excelente receptividade. A partir de sua experiência como escritor, como aumentar o número de leitores dessa área?
Nossa! São tantas coisas que podem ser feitas! Feira do Livro, com preparação prévia, trabalho continuado, projetos de leitura são sempre um coroamento para o trabalho. Mas isso só funciona mesmo em longo prazo. Acredito que o trabalho de formação do leitor envolve o poder público (as escolas), a Biblioteca Pública e as famílias. Envolver os pais nas atividades de promoção de leitura é garantir também uma relação afetuosa para a leitura... “Pais que contam e leem para seus filhos, filhos que contam e leem para seus pais”. Isso poderia ser um lindo projeto. Já vi acontecer em vários lugares! Não ficar centrado só na leitura de livros. A leitura envolve tudo: teatro, música, dança, artes visuais, ópera, circo, cinema, vídeo, etc. Associar as propostas de leitura literária com outras linguagens artísticas também são um caminho promissor. Fazer “rodas de leitura”, discussão de um texto curto, na hora, discussão de um filme... ah, são tantas coisas. Mas é preciso pensar com carinho no leitor, para que ele tenha opção de escolhas também: essa coisa de uma única leitura obrigatória (por bimestre, quase sempre) na escola é ruim. É preciso apresentar um “leque” de opções pensando na diversidade dos alunos...


2.             Como você se tornou escritor e um contador de histórias tão cativante?
Me tornei primeiro um contador de histórias: foi a formação em teatro que me levou a ser um contador de histórias (mas na minha família as minhas avós são grandes exemplos... a
convivência com elas, na casa delas, com os primos, a infância cheia de aventuras e as histórias de vida delas também foram sempre inspiradoras).
Comecei a escrever pensando nos meus alunos. Eu era professor de literatura de crianças do jardim de infância à 4ª série, numa escola no Rio de Janeiro. E foi para esses alunos, que comecei a escrever as minhas primeiras histórias: para contar para eles, na Biblioteca da Escola. Depois disso, não parei mais de escrever. Um dia, estava eu num evento para professores contando histórias e um editor me viu, veio conversar comigo, soube que eu tinha uns textos guardados, pediu para ler e foi assim que saiu o meu primeiro livro “Ver de ver meu pai”, ilustrado pelo Roger Mello e publicado pela editora Nova Fronteira.

3.             Como você constrói o contexto para suas histórias e de que modo surgem os personagens?
As histórias nascem da vida ao redor. E da vida que a gente guarda na memória também. Às vezes surgem de uma reportagem que vejo na TV e que fica martelando na minha cabeça. Às vezes, a letra de uma música me faz escrever uma história. Às vezes um fato que aconteceu comigo lá na infância é o ponto de partida da história. Mas também preciso dizer que não tenho nenhum compromisso com o que aconteceu de verdade comigo, isto é, muita coisa não aconteceu mesmo e eu invento! O mais importante pra mim é esse exercício da linguagem e da fantasia. A maneira como vou escrever e o quê de novo meu texto vai trazer. Os personagens nascem de observar gente que conheço, ou de imagina alguém ideal para viver aquela história que estou contanto. Não é necessariamente alguém que exista de verdade. Pode ser a mistura de muita gente. Ou pode ser totalmente inventado. É assim pra mim...

4.             Das obras que escreveu, tem alguma que é sua favorita? Por quê?

Ah... difícil dizer isso! Tenho várias favoritas. “Ver de ver meu pai”, que foi o primeiro. “Mãe África”, que nasceu de uma longa pesquisa no universo das histórias africanas, e que me fez conhecer e mergulhar cada vez mais fundo nessas historias populares. O livro “Diáfana”, que me deu 2 prêmios importantes (o prêmio Açorianos de 2011 de Livro do Ano e o Prêmio Açorianos de 2011 de Melhor Livro Infantil)...São tantos... Se eu ficar pensando, cada um dos 81 que já publiquei será importante por um motivo!

5.             Que orientações daria para quem quisesse ser contador de histórias?
Ler muito. Ler sempre. E começar a treinar: contar para os amigos, contar histórias para a família, contar histórias para os menores... Enfim... Ficar atento nas reações das pessoas para perceber o que funciona, o que agrada a que tipo de público, prestar atenção como você pode melhorar cada vez mais o seu jeito de comunicar-se com o público, o seu jeito de comunicar uma história... E não ter vergonha, não ter medo. Aliás, quanto mais a gente faz algo, mais a gente fica à vontade e vai perdendo a vergonha... Mas preste atenção numa coisa importantíssima: só conte aquelas histórias que mexerem com a sua emoção de verdade. Se uma história não te provoca nada, você também não poderá provocar, com ela, a emoção dos outros.

Celso Sisto

Porto Alegre, 03 de outubro de 2016.